A inteligência artificial generativa está ganhando espaço definitivo na publicidade. A tecnologia, que inicialmente era utilizada para testes e produções experimentais, já participa da criação de comerciais, personagens, imagens, animações e novas experiências de compra.
Marcas, agências e estúdios especializados estão combinando ferramentas de geração de imagens, vídeos e textos para produzir campanhas mais rapidamente, testar conceitos e desenvolver narrativas que seriam difíceis ou caras de realizar por meio de processos tradicionais.
Uma seleção divulgada pelo Ad Age e repercutida pelo Meio & Mensagem reuniu cinco iniciativas recentes que ajudam a entender como a IA está sendo aplicada na comunicação. A lista inclui conteúdos inspirados na Copa do Mundo e ações de Fi Ultra, Amazon, Papa Johns, Meta e Chiquita.
1. Craques da Copa do Mundo são transformados em personagens de anime
A combinação entre futebol, anime e inteligência artificial ganhou força durante a Copa do Mundo. Criadores utilizaram ferramentas generativas para transformar jogadores como Lionel Messi, Erling Haaland e Kylian Mbappé em personagens de animações japonesas.
As produções recriam confrontos esportivos como se fossem batalhas de histórias em quadrinhos ou episódios de séries de ação. Movimentos, expressões e características dos atletas são reinterpretados em uma estética marcada por efeitos dramáticos, enquadramentos cinematográficos e poderes especiais.
A plataforma Higgsfield AI também ganhou visibilidade com conteúdos que mostravam como transformar jogadores em personagens de anime. O criador Steven Wommack publicou um tutorial apresentando etapas desse processo e ajudou a ampliar a tendência nas redes sociais.
2. Fi Ultra produz comercial inteiro com inteligência artificial
A Fi Ultra, empresa especializada em dispositivos de rastreamento para cães, lançou um comercial de 60 segundos totalmente produzido com inteligência artificial.
Batizada de “Unleash the Wild”, ou “Libere o Selvagem”, a campanha utiliza imagens de montanhas, estradas, veículos, animais e paisagens naturais para demonstrar as capacidades de rastreamento por satélite do dispositivo.
A produção foi desenvolvida pelo estúdio de inteligência artificial Dolsten & Co. e combinou ferramentas como Claude, da Anthropic, Kling AI e Veo, do Google.
Um dos principais diferenciais está na representação dos cães. O estúdio utilizou animais reais pertencentes a integrantes da equipe da Fi como referência para criar versões digitais fotorrealistas.
A equipe também buscou reproduzir imperfeições características de filmagens reais, como o movimento de uma câmera operada manualmente, a textura de uma lente suja e a movimentação irregular de um cachorro durante um salto.
3. Amazon e Papa Johns transformam anúncio em ponto de venda
A Amazon apresentou o Alexa+ Agentic Ads, formato publicitário interativo desenvolvido para aproximar a descoberta de um produto da realização da compra.
Em uma das demonstrações, a Papa Johns aparece em um anúncio reproduzido por um dispositivo Alexa. Durante a experiência, o consumidor pode interagir com a assistente e solicitar uma pizza sem precisar sair daquele ambiente.
A ação mostra como inteligência artificial, mídia e comércio eletrônico começam a funcionar de maneira integrada. O anúncio deixa de ser apenas uma mensagem exibida ao público e passa a atuar como uma interface capaz de receber comandos e conduzir o consumidor até a conversão.
Para a Amazon, a proposta também fortalece a integração entre sua operação de publicidade, seus dispositivos, a inteligência artificial generativa e seu ecossistema de comércio digital.
Ver a demonstração oficial da Amazon ↗4. Meta apresenta o Muse Image e prepara modelo de vídeo
A Meta revelou o Muse Image, modelo de inteligência artificial desenvolvido para a geração de imagens. A tecnologia é um dos primeiros resultados públicos dos laboratórios de superinteligência da companhia.
O lançamento faz parte de uma família de modelos que deverá sustentar futuros produtos e ferramentas criativas da Meta. A empresa também apresentou o Muse Spark, voltado para linguagem, e informou que trabalha no desenvolvimento de um modelo de geração de vídeos.
Entre os exemplos divulgados pela companhia está uma cena de um panda rolando por um morro, demonstrando a capacidade de produzir movimentos e sequências visuais a partir de comandos.
Para o mercado publicitário, modelos como o Muse podem ser utilizados na visualização de conceitos, na criação de imagens de produtos, no desenvolvimento de variações de anúncios e na realização de testes antes da produção final de uma campanha.
Conhecer os modelos Muse da Meta ↗5. Chiquita revisita a história dos Estados Unidos com IA
A Chiquita utilizou inteligência artificial para desenvolver uma campanha comemorativa relacionada aos 250 anos da independência dos Estados Unidos.
O comercial apresenta as bananas da marca em diferentes períodos e cenários históricos norte-americanos. A narrativa passa pelo Velho Oeste, pela construção da ponte Golden Gate, pela Times Square na virada do milênio e pelo festival de Woodstock.
A personagem Miss Chiquita também participa da produção, aparecendo inserida em alguns dos acontecimentos retratados.
A campanha foi criada pelo estúdio Silverside, especializado em produções com inteligência artificial, em parceria com a agência Mediaplus.
Em vez de esconder completamente a origem tecnológica das imagens, o filme assume uma estética associada à IA generativa. A produção combina cenas realistas com transições, ambientes e composições que dificilmente seriam filmados em uma única produção tradicional.
IA amplia as possibilidades da criação publicitária
As cinco iniciativas mostram que a inteligência artificial já pode atuar em diferentes etapas da comunicação. A tecnologia aparece na criação de personagens, na produção de filmes, no desenvolvimento de imagens, na interação com consumidores e até na realização de compras.
Esse avanço não significa que o trabalho humano tenha perdido importância. Mesmo quando uma campanha é apresentada como totalmente gerada por IA, ainda existem profissionais responsáveis pelo conceito, pelo roteiro, pela direção criativa, pela escolha das ferramentas e pela curadoria dos resultados.
A geração de uma cena também pode exigir diversas tentativas até que personagens, ambientes e movimentos apresentem a qualidade e a consistência necessárias para uma campanha profissional.
Por isso, a principal transformação não está apenas na redução de custos ou no aumento da velocidade. A inteligência artificial amplia o número de caminhos disponíveis para que equipes criativas desenvolvam ideias, realizem testes e produzam experiências que antes dependeriam de estruturas muito maiores.
Direção criativa continua sendo decisiva
Quanto mais acessíveis se tornam as ferramentas de geração de conteúdo, maior é a importância de uma direção criativa capaz de transformar recursos tecnológicos em narrativas relevantes.
Uma imagem tecnicamente impressionante não garante, por si só, uma campanha eficiente. A comunicação ainda precisa considerar o posicionamento da marca, o comportamento do público, o contexto cultural e os objetivos comerciais.
As campanhas que melhor utilizam a inteligência artificial não são necessariamente aquelas que exibem mais efeitos. São as que encontram uma justificativa estratégica para a tecnologia e conseguem utilizá-la para ampliar a mensagem.
A tendência é que a publicidade passe a combinar cada vez mais filmagens tradicionais, imagens geradas, personagens digitais, dados e experiências interativas. Nesse cenário, a IA deixa de ser tratada como uma atração isolada e passa a integrar naturalmente o processo de criação.
